Será doença, a dificuldade de empreender? Será Síndrome de Empregado?
[Sérgio Ricardo]
  

Certa vez, escutei uma versão sobre a razão da diferença empreendedora entre os EUA e o Brasil. A colonização deles, estimulou o desbravamento do país. Lembra dos filmes sobre a colonização do Velho Oeste? Onde quem chegasse mais rápido e estivesse mais forte ficava com o que queria. Isso estimulou o desbravamento, a busca do sonho. Aquilo era terra de ninguém. Quem marcasse ficava.
Já a nossa colonização luzitana, disse que tudo tinha dono. Que o Brasil era de Portugal, onde dividiram todo o nosso país nas Capitanias ( que eram) Hereditárias. Tudo era do Estado e tínhamos que trabalhar para ele. Ou você era da realeza, ou súdito ou escravo. Quem tentou tirar do Estado mórreu, como fala o Nérson da Capitinga. Os Tiradentes, os abolicionistas, os Zumbis dos Palmares, mórreu tudo
Acredito que esta análise tem uma certa lógica que poderia explicar um pouco a nossa cultura enraizada em depender das instituições. Quando era criança o sonho dos meus pais, era que eu fosse funcionário do Banco do Brasil ou militar. Pois desta forma, o meu futuro estava garantido, que eu me aposentaria como gerente ou como capitão. Eles fariam tudo por mim. A gestão militar também teve fator fundamental em inibir iniciativas, pois martelavam em que era muito mais inteligente e saudável (na opinião deles) depender e ser protegido (Arghh!!) pelo Estado.
Só que de repente o Estado faliu. A forma do mundo fazer negócio mudou. Hoje, você pode vender para todo o mundo. É como se estivéssemos em um shopping. A velocidade da informação faz surgir e faz fechar novas empresas a cada dia. O emprego acabou.
A relação entre trabalho e remuneração também. A forma como interagimos com a empresa é diferente. Agora é, faz esta tarefa, eu lhe pago e tchau. Quando precisar de você de novo, no mês que vem, eu te chamo, tá bom? A participação em projetos será a principal forma de contratação.
A globalização permitiu que soubéssemos o que acontecia no mundo. É como se descobríssemos, que nós, seres normais, podíamos jogar.
Quando conheci a Internet, percebi que podia! Que haviam me dado ingressos para participar de tudo o que assistia nos filmes e lia nos livros. Pois naquele momento, poderia conhecer tudo que estava na rede. Que fazer um site era barato, que buscar informação era fácil, que podia me comunicar. Na época, os que detiam a informação tinham o poder, mas a globalização acabou com isto, distribuindo-a para quem quisesse.
Acredito que o empreendedorismo tenha realmente se iniciado, com o surgimento da informação para o grande público, onde as pessoas começaram a perceber que não era preciso ser endinheirado e formado nas maiores instituições acadêmicas para empreender. Não era para qualquer um, mas não era bicho de sete cabeças.
O grande problema deste início de atividade empreendedora é o fato de acharmos que empreender é abrir empresas e ter sucesso, sem ter que nos preparamos para isso. É a falta de cultura. Também é compreensivo este posicionamento. O boom da Internet mostrou que jovens em suas garagens conquistavam o mundo. Que bastava ter uma grande idéia e peito para colocar em prática. Além do fato das instituições acadêmicas ignorarem completamente durante anos, a possibilidade de abrir um negócio próprio. O tchan era entrar em uma grande multinacional. Isso sim que era futuro.
Na minha infância tinha a percepção de que donos de pequenos negócios ao meu redor (padaria, lanchonete, papelaria, restaurante) eram pessoas que abriram estas empresas para sobreviver, porque não tinham condições de entrar nas grandes e prosperar até se tornar um executivo.
Existem cases incríveis onde o incentivo ao empreendedorismo mudou a história. O escritor Sérgio Almeida conta em seu livro "Gestão de Sonhos", uma entrevista com Amyr Klink, sobre um trabalho nas Ilhas Faeroe, na Austrália, onde as pessoas vivem na atividade pesqueira, os homens nos barcos no mar e as mulheres na industria manufatureira de peixe. Nas escolas, os jovens de 10 a 17 anos são ensinados sobre o seu modo de vida. Sobre o que fazer quando forem trabalhar. Desta forma quando estão no trabalho podem colocar na prática novas estratégias pesquisadas.
Dois jovens de 18 anos foram premiados por revolucionarem a atividade e por aumentarem a produtividade. Grande percentual dos peixes era jogado fora, pois eram pescados dias antes no mar e chegavam à fábrica já apodrecendo, e se voltassem logo, vinham com pouca quantidade. Estes dois jovens criaram uma embarcação de pesca, com um sistema de piscina embaixo do barco. Então, os peixes eram mantidos vivos até chegarem. Apenas poucas horas, separavam os peixes da industrialização. Estas pesquisas só eram possíveis através do apoio do governo. Já imaginaram quanto tempo seria necessário, se só começassem a pensar nas soluções, depois que entrassem no mercado de trabalho? É esta perda que vivemos no nosso Brasil. O antigo país do futuro.
É incrível, ainda existem escolas de datilografia e de torneiro mecânico no país. Estas profissões não existem mais.
Acredito que a solução para o país, está na evolução da educação, para que depois possamos mudar o país pela educação. Hoje não importa se o profissional sabe muito, mas se ele gosta e tem facilidade para aprender. Na economia da informação o que vale é o aprendizado que uma situação nova permita, para que possa repetir algumas vezes, até que mude de novo.
O Estado é fundamental no estímulo ao empreendedorismo. Sabemos que temos que mudar o ritmo das nossas atividades, para gerar produtos e serviços de qualidade, exportar, etc. Porém para se descobrir novas terras, precisamos de novos mapas. Devemos fazer diferente do que tem sido feito.
Olha a carga tributária para abrir um novo e pequeno negócio. Tentei legalizar uma empresa e fiquei abismado. A carga tributária é muito alta, por isso que temos a economia informal tão forte. É melhor ser clandestino, virar camelô. Conheço lojistas que montam barracas na frente das suas lojas, para venderem sem nota.
Não seria a hora de incentivos fiscais? De permitir a legalização de uma empresa pela Internet e/ou em poucos dias? De oferecer bônus? De criar rodadas de negócios? Do Estado informar que comprará 30% dos seus insumos apenas de pequenas empresas?
Ainda não li sobre como funciona nos EUA. Mas fiquei curioso. Este artigo me desperto, vou pesquisar. Mas acredito que pelo menos metade destas ações, ou outras semelhantes deve ser feito.
E a velocidade como o mundo muda, cria o que chamo de "desemprego estrutural". Quantas pessoas estão sendo desempregadas, sem ter condições de se recolocar, pois não são empregáveis. Tenho um amigo que é um excepcional desenhista, utilizava a "régua T", fazia cada coisa linda. Só que não aprendeu informática e foi afastado do mercado por causa de softwares que fazem muito mais do que ele fazia, mesmo se os operadores não tiverem o "dom" e a arte, que ele tinha.
Para onde foi esta pessoa? Abriu um negócio próprio para criar projetos. Pediu em empréstimo, comprou o tal equipamento, matriculou-se em uma escola, aprendeu o software, ficou fera e foi buscar clientes. Fechou a empresa 3 meses depois, vendeu o equipamento pela metade do preço (pois estava usado), ficou endividado e virou cobrador de ônibus. Por que isso aconteceu? Pois ele não estava preparado para a gestão de uma empresa, para analisar o mercado, para captar clientes. Ele só era um grande desenhista, que teve que virar emprendedor. No Brasil, a maioria dos casos é de emprendimentos que surgiram pela necessidade e não por oportunidade. Sabe o que me preocupa neste amigo? Que logo ficará desempregado de novo. Pois acredito que roletas eletrônicas iram acabar com a profissão de trocador. Orientei em tentar algo novo, ou virar motorista, pois não deve dar para uma máquina dirigir o ônibus.
Além do fato de ser necessário, a destruição criadora, isto é desaprender tudo o que sabíamos, que era usado na prática, que funcionava, mas por mudanças tecnológicas ou mercadológicas não servirá mais. Antes uma metodogia era utilizada por anos, portando o "ROI" (retorno sobre o investimento) era enorme. Hoje, quando tudo acontece rápido, a depreciação da informação é muito rápida. Desta forma, as empresas não têm tempo de ficar reciclando constantemente os seus funcionários. Assim , muitos ficam para trás.
Descobrimos a duras penas, que a única certeza é que tudo mudará, Que não importa o quanto se sabe, mas o quanto se consegue aprender e se ajustar.
E esta mudança, com o sumiço do emprego, obriga ao tal emprendimento de desespero. Mas, gera um catástrofe, pois em uma país, onde a micro empresa (menos de 100 funcionários) é responsável por 99,3% dos estabelecimentos industriais e comerciais, e 80% das empresas quebram nos primeiros 5 anos,
A metodologia educacional deveria formar profissionais que não fossem meros repetidores de informações cunhadas no passado, que se tornaram completamente ultrapassadas. Para se tornarem facilitadores, promovendo o questionamento, reflexão e motivação nos alunos em criarem um mundo melhor. Tenho certeza que o investimento do empreendedorismo irá permitir o desenvolvimento da capacidade de realização do nossos povo. Visto que as principais razões de quebra das micros e pequenas empresas é a total falta de preparo.
Precisamos de investimentos na educação, para permitir que a educação funcione como "mola impulsionadora" do desenvolvimento sustentável.
Hoje, sem estímulo somos o 5º país do mundo em número de empreendedores, perdendo para países como, México, Nova Zelândia, Austrália e Coréia. Fala sério! Eles não tem a estrutura, o povo e a riqueza que nós temos. Bem, talvez tenham políticos com melhor visão.

  
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